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Infocracia: por que o Brasil precisa de uma rede social nacional

Por Equipe BemTeVi · · 8 min de leitura

Infocracia e a importância de uma rede social nacional
Resposta rápidaNo livro Infocracia, o filósofo Byung-Chul Han mostra como o controle dos dados virou controle da democracia. A China levou essa lição ao pé da letra, do jeito autoritário. O Brasil já viu de perto o que acontece quando o debate eleitoral mora na plataforma de uma empresa estrangeira. Uma rede social nacional, democrática e transparente, é o caminho do meio que defendemos no BemTeVi.

Uma rede social nacional não é capricho patriótico. É uma questão de democracia. Quem nos convenceu disso foi um livro curto e incômodo: *Infocracia: digitalização e a crise da democracia*, do filósofo sul-coreano radicado na Alemanha Byung-Chul Han (Vozes, 2022). Neste texto, seguimos o raciocínio dele e o aplicamos ao Brasil.

O regime de informação, segundo Byung-Chul Han

Han chama de regime de informação a forma de poder em que dados e algoritmos decidem os rumos da economia e da política. Antes, quem mandava era o dono das fábricas. Agora, segundo ele, manda quem tem acesso aos dados de comportamento das pessoas.

O ponto mais forte do livro é outro, porém. Na velha vigilância, o preso sabia que era vigiado e tentava se esconder. Hoje, explica Han, ninguém se sente vigiado. Pelo contrário, a gente se sente livre. Por isso mesmo postamos, curtimos e nos expomos por vontade própria. Para o autor, é justamente essa sensação de liberdade que garante a dominação.

Além disso, Han aponta um paradoxo. A plataforma exige que o usuário seja transparente. No entanto, ela própria nunca é. A sala de máquinas, onde o algoritmo decide o que você vê, continua escura. Ou seja, nós viramos vitrine, e a caixa-preta fica do outro lado.

Soberania hoje é ter os dados

Há uma passagem do livro que resume tudo. Han lembra a frase do jurista Carl Schmitt, para quem soberano era quem decidia sobre o estado de exceção. Depois, propõe uma atualização para a era digital: "soberano é quem dispõe das informações em rede".

Se isso vale, a pergunta para o Brasil fica simples. Quem dispõe das informações dos brasileiros? Hoje, a resposta é: quase sempre, empresas de fora. As conversas, as fotos, os grupos de família e o debate político do país passam por servidores e algoritmos que não respondem a ninguém daqui. Por isso, a discussão sobre uma rede social nacional é, no fundo, uma discussão sobre soberania.

O que a China fez, e por que não é o nosso modelo

A China parece ter lido Schmitt antes de Han. Em 2009, bloqueou o Facebook e o Twitter, hoje X. Nos anos seguintes, Google, Instagram e WhatsApp também saíram do ar por lá. No lugar deles, cresceram plataformas próprias, como WeChat, Weibo e Douyin. Além disso, a Lei de Cibersegurança, de 2017, e a Lei de Proteção de Informações Pessoais, de 2021, amarraram os dados dos chineses ao território chinês.

Ou seja, a China entendeu que quem controla a rede controla a conversa do país. Mas fez isso para que o próprio Estado controlasse a conversa. Lá, a rede é nacional e também é censurada. Há cadastro com nome real, filtros de palavras e vigilância política.

Nesse ponto, o livro de Han ajuda a não cair numa armadilha. O regime de informação não muda de natureza só porque o dono mudou de endereço. Trocar a vigilância de uma empresa estrangeira pela vigilância de um governo não liberta ninguém. Portanto, o que o Brasil precisa não é de uma muralha. É de uma rede social nacional sob a lei brasileira, com regras públicas e sem vigilância.

A Meta e as eleições brasileiras

Han dedica boa parte do capítulo "Infocracia" às eleições. Ele descreve a psicometria: com dados suficientes, um algoritmo prevê o comportamento de alguém melhor do que um amigo. Em seguida, vem o microdirecionamento. Cada eleitor recebe um anúncio diferente, calibrado para o seu perfil. Para Han, esses "anúncios sombrios" fragmentam o debate público. Afinal, ninguém vê o que o vizinho está vendo. E, sem isso, a sociedade perde a capacidade de se observar.

O exemplo central do livro é a Cambridge Analytica, que usou dados do Facebook na campanha de Donald Trump em 2016. O Brasil não ficou de fora. Segundo o Ministério da Justiça, dados de cerca de 443 mil brasileiros entraram naquele pacote. Por isso, o Facebook foi multado em R$ 6,6 milhões.

De 2018 a 2026: os episódios nas plataformas da Meta

Depois da Cambridge Analytica, vieram outros episódios, todos em plataformas da Meta:

Interferência não precisa de intenção

Nenhum desses episódios prova que a Meta quis escolher quem governa o Brasil. Aliás, ao analisar a falha da Meta AI, o relator do caso no TSE escreveu que não via critério deliberado. Mas Han mostra que nem é preciso intenção. Basta que uma decisão tomada em outro país mude o que milhões de brasileiros veem às vésperas de uma eleição.

Pense na checagem de fatos. Se ela acaba aqui um dia, o debate eleitoral brasileiro muda de regra sem que nenhum brasileiro tenha votado nisso. Da mesma forma, um ajuste no algoritmo pode dar mais alcance a um tipo de conteúdo do que a outro. Isso é uma interferência possível, e legal, no processo eleitoral. Além disso, ela é quase invisível, porque acontece na sala de máquinas escura de que Han fala.

O livro descreve ainda os robôs que se passam por gente e mudam o clima das redes. Segundo Han, eles não precisam convencer ninguém de nada. Basta que pareçam muitos. Enquanto isso, a verdade chega sempre atrasada, porque checar leva tempo e a mentira se espalha antes.

Uma rede social nacional que não vive de prender você

Han tem uma explicação para tudo isso. A informação viral vive de afeto, de surpresa e de indignação. Já a democracia precisa de tempo, de argumento e de calma. Por isso, uma rede cujo lucro depende de você rolar sem parar sempre vai preferir o que inflama ao que esclarece.

Uma rede social nacional pode escolher outro desenho. Foi o que tentamos no BemTeVi. A Linha mostra quem você segue, em ordem de publicação, e avisa quando você está em dia. As sugestões por curtidas vêm desligadas. O app não usa rastreadores e não compartilha seus dados com plataformas estrangeiras de anúncio. Além disso, a moderação é feita por pessoas, com regras escritas em português claro. Contamos os detalhes em como funciona o feed e em seus dados no Brasil.

O BemTeVi e o caminho do meio

Não temos a ilusão de que um app resolve a crise da democracia. Han, aliás, é pessimista: ele duvida que dê para combater a epidemia de desinformação só com mais informação. Ainda assim, há uma diferença enorme entre um país que só tem as redes dos outros e um país que tem também a sua.

O BemTeVi está se preparando para o lançamento. Queremos provar que dá para ter uma rede social nacional sem muralha e sem vigilância. Ou seja, com os dados sob a lei brasileira, um feed que respeita o seu tempo e regras que todo mundo pode ler. Se você também acha que isso importa, entre na lista de espera na página inicial. Para entender o projeto desde o começo, leia por que o Brasil precisa de uma rede social própria.

*Referência: HAN, Byung-Chul. Infocracia: digitalização e a crise da democracia. Tradução de Gabriel S. Philipson. Petrópolis: Vozes, 2022.*

Perguntas frequentes

O que é infocracia?

É o termo que Byung-Chul Han usa para a democracia dominada pela informação. Nela, algoritmos, dados e viralização pesam mais nas decisões políticas do que o debate com argumentos.

Por que uma rede social nacional é importante?

Porque quem controla a rede decide o que circula e guarda os dados de comportamento das pessoas. Com uma rede nacional, essas decisões ficam sob a lei brasileira e podem ser cobradas aqui.

A China é um exemplo a seguir?

Não. A China protegeu seus dados de empresas estrangeiras, mas os colocou sob vigilância e censura do Estado. O modelo que defendemos é nacional e democrático ao mesmo tempo.

A Meta interferiu nas eleições brasileiras?

Não há prova de que a empresa quis interferir. Mas houve episódios documentados em suas plataformas, como os disparos ilegais no WhatsApp em 2018, os anúncios de desinformação aprovados em 2022 e as falhas reconhecidas na eleição de 2026, que levaram o TSE a exigir tratamento igual às campanhas. Além disso, mudanças de regra decididas fora do Brasil podem afetar o debate eleitoral daqui.

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